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"A Mulher de Sete Metros"

Onde hoje se localiza o Forúm de Patos de Minas, situou-se o primeiro cemitério da cidade. Dali, segundo a tradição, sai uma mulher de sete metros de altura e vai até perto do monumento do Presidente Olegário Maciel. É a alma penada de Lavi Lopes, fazendeira bastante rica e possuidora de muitos escravos, que viajava muito, indo constantemente ao Rio de Janeiro, onde gozava dos encantos da cidade. Era de grande perversidade, sobretudo para com seus escravos. Jogava gordura fervendo nas negras, queimando-as porque elas não realizavam os trabalhos de acordo com seu exigentíssimo gosto. Isto só para martirizá-las. Umas das escravas tentou jogar a malvada dentro da cisterna. A sua maldade era tão grande que, quando usava sapatos de salto alto, pisava nos braços dos filhos dos escravos
quando estes engatinhavam, quebrando-lhes os braços e não permitia tratamento e nenhum cuidado aos inocentes machucados.
Em razão disso, foi ficando isolada de todos e de tudo. Ninguém desejava a sua companhia, e fugiam dela. Viveu muitos anos, tristemente, morrendo já
bastante idosa, abandonada e pobre. A sua figura, quando morta, inspirava terror, pois não fechou os olhos, nem a boca, ficando com a língua para fora. As crianças tinham pavor dela, e de seu aspecto. Em sua antiga casa, ouviam-se, até há pouco tempo, arrastar de correntes, ganidos e gritos de dor.
 
Site: As Minas Gerais



Escrito por paulo honório às 17h03
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Para a Érica,

 

Acho que nunca pensei nele seriamente, ou nunca no sentido de querer saber qualquer coisa dele. Ele nem é tão característico para quem vive nos cerrados brasileiros, quer dizer, até pode ser: as chuvas diminuem; os dias vão ficando menos quentes e mais curtos; o vento da tarde já trás consigo algo de frio, o verde vai dando lugar ao amarelo, ao palha; as mexericas já podem ser colhidas e o principal: a seca vai chegando devagar até se tornar ela própria o inverno e quase toda a paisagem. De qualquer forma nunca havia me atentado a ele. E ele se foi ontem ou anteontem, tal como muito de nós se perde sem ser percebido ou entendido. Foi-se o Outono, veio o Inverno, o mesmo que não me gerou, mas no que nasci. O das férias geladas de julho, dos pés frios e às vezes de meia, da fumaçinha que sai da boca quando se vai para a escola cedinho, dos banhos corridos, dos muitos cobertores, do preguiçoso acordar, da cama quentinha e do prazer de ser aquecido. O Outono é passado e só o que resta é esse frio com o sol quente que faz com que a poeira de Brasília se torne redemoinho e também canção, beleza, morte e no fim, lá no fim dela mesma, vida.  Até porque dizem que a flor da cagaiteira não cai na poeira..



Escrito por paulo honório às 02h15
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Brasília, 49 anos

 

E Brasília fez quarenta e nove anos e também 9 que  vivo por aqui.

E o que é Brasília? O que ela representa para este país? Para o futuro, para o passado?

Um sonho, uma utopia, um castelo medieval, uma flor de concreto plantada no solo vermelho deste planalto infinito?

Provavelmente ela é tudo isso e tantas outras coisas.

No fundo há inúmeras Brasílias, tão diversas entre si, tão diferentes, contraditórias. Às vezes parece que enquanto o mundo caminha para um lado, aqui se vai para outro. Cidade monumento, engessada e mutante. Suas dimensões sem fim, seu lago que quase toca o céu, seus crepúsculos-espetáculos, seus ipês, sua gente daqui e de fora, sua música, sua magia, seu mistério. Para muitos uma cidade fria, de trato difícil, de grupos impenetráveis, de distâncias que só separam, sem esquinas, sem povo na rua. Mas talvez a questão seja aprender olhar as coisas com atenção e, sobretudo, com predisposição de ir ao encontro delas. Daí tudo fica diferente.

Talvez ainda esta cidade não exista completamente enquanto cidade, talvez ela possa ser um novo conceito não tão entendido ainda.

Mas para mim ela é algo ainda próximo do preciso entender como lar. Sei que ainda não o é completamente, talvez só um começo.

Aqui tanta coisa aconteceu, desconteceu, se misturou, ficou e foi embora. Aqui sei o que é ser livre, o que é ter paz, mas também o que é ser pequeno diante da imensidão desse mundo impossível que é Brasília. Minha alegria, minha tristeza, minha inquietude, meu desgosto, minha vontade de ir para não sei onde, minha vontade de ficar sempre. Em tudo Brasília terá parte de culpa, parte de responsabilidade e também será completamente inocente.



Escrito por paulo honório às 01h13
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Eu queria ser o vento..

 

A nós, por mistérios maiores que o tempo, nos coube nascer humanos e não pássaros, cobras ou árvores. Também não somos fogo, plasma, chuva. Eu, por minha vez,  queria ser o vento. Não porque não goste de ser uma pessoa, até gosto. Mas o vento é estranho, ora leve, ora forte,  invisível, até necessário. É livre o suficiente para se jogar contra os rochedos do mundo, contra as muralhas dessa vida e, insistindo,  faz com que sua voz ecoe entre eles. Ele voa para os lugares altos e os mais baixos; e ninguém é completamente insensível a ele. Sua fúria pode destruir cidades, mas sua calma pode ser o alívio num dia quente. Numa noite escura pode ser tão terrível quanto nossos medos mais escondidos e num dia de chuva tão triste com uma lamentação. Ele é a própria natureza em movimento, o fluir do espírito deste planeta errante.

Seu caminho é incerto e impreciso, ele vai e vem, começa e nem sempre termina. Balança folhas, nos faz sentir frio, varre o telhado das casas, as ruas.

No fundo, o vento é a melhor metáfora da liberdade, do espírito, do que deveríamos ser.



Escrito por paulo honório às 14h15
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Um rio

 

Talvez pelo fato de ser mineiro não gosto tanto de grandes extensões de água, de vê-las tomando o horizonte, engolindo e turvando o finito que vemos. As amplitudes desse meio de Brasil sempre me foram mais caras que o absoluto do mar, onde tudo se torna água e já não há mais terras, montanhas, paisagens. No mar não parece haver caminhos, possibilidades, desdobramentos. O mar é e ponto. Ele se basta. Prefiro os rios, eles, ao contrário, são estradas, vias; vão rompendo mundos, ruindo obstáculos, abrindo passagem, construindo. São insistentes, atrevidos, petulantes até. Passam onde não deveriam, buscam o caminho mais fácil; mudam, diminuem, mas também se tornam violentos, arrasadores. Carregam tanta coisa em si e no fim dão tudo, seja para o mar, seja para outro maior. Não ficam com nada. Transformam-se em outros, se misturam. Morrem para outra coisa nascer. Tão arrogantes e tão generosos.

Um rio é também um tempo. Ele está sempre lá, correndo, mas também parado, em algum lugar, vigiando o mundo ao seu redor; contando histórias. Paciente, ele espera que o mundo mude para então mudar com ele.  É como um livro, que sempre é escrito e reescrito, mas que prefere não ser conhecido de todo. Um rio conta tudo de si e não diz nada, em seu silêncio fala coisas secretas, coisas que não são compreensíveis. Um rio caminha no espaço do mistério, onde tudo não é bem o que se vê, menos ainda o que se ouve. Serpenteando, cria mundos para si tornando-se senhor e razão deles. Suas águas, sua força, seu contínuo, sua seca são como a própria vida: abundante, rara, profunda,improvável.

Um rio permanece, nós passamos. São testemunhos dos tempos enquanto que nós estamos mais para brisas em dias abafados. Quando os povos e suas civilizações forem esquecidos no sono do futuro, eles ainda estarão lá, retomando seu brilho perdido e, quem sabe, contanto também nossas histórias.



Escrito por paulo honório às 17h15
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Monstros na noite escura

 

Uma torrencial chuva cai sobre uma pequena cidade em algum lugar da América do Norte; janelas quebradas com quedas de árvores,  falta de luz, enfim, velhas tempestades e um outro dia amanhece. Um  pai vai com o filho ao mercado, que fica no centro da cidade, para comprar mantimentos e providenciar reparos na casa, afinal o tempo não parecia melhorar.

Tudo relativamente tranqüilo, nada de muito anormal até um espesso nevoeiro tomar conta da cidade, de toda ela. Em poucos instantes não se vê mais nada do lado de fora do prédio do supermercado, todo estacionamento está invisível. Dele surge um homem gritando e bastante machucado, falava que havia alguma coisa na névoa que o atingira, mas não sabia o que era, somente que era forte e agressivo. As pessoas ficam meio confusas com tudo aquilo e, lógico, assustadas. Esse é o começo do O Nevoeiro, um filme baseado no conto de mesmo nome de Stephen King. Não se via nada para além das vidraças do mercado, somente a pesada e bloqueante névoa. Ela envolvia a cidade e a sufocava. Nenhuma outra cor ou luz, só ela e, nela, alguma coisa ou coisas. Dentro do prédio as pessoas já impacientes começam a quer sair e ou tentar compreender o que de fato está acontecendo. Animosidades não demoram  a surgir e alguns saem. Uma mulher some no nevoeiro e não volta, um homem também vai, mas dele se ouvem gritos de dor e desespero.

Lentamente tudo começa a piorar e piorar bastante. Não era um nevoeiro comum. Nele se escondiam seres monstruosos, famintos, ávidos por caça. Alguns gigantescos, outros semelhantes a animais antigos. Bestas feras avançavam no mais denso nevoeiro que se tinha notícia e, dentro do prédio, pessoas horrorizadas não tinham mais a menor noção do que era tudo aquilo. Era como se o próprio inferno estivesse se materializado.

Não havia mais nada que fazia sentido, nenhuma racionalidade poderia explicar a dimensão que os fatos estavam tomando. E quando falta tudo existe uma saída fácil e antiga, muita antiga: a escuridão, o lançar-se profundamente nas trevas do pensamento humano. Quando o medo e o desconhecido se fundem, não há limites para as tentativas de se escapar deles.

Mortes, perseguições, sacrifícios e sangue são requeridos das pessoas presas para aplacar a fúria apocalíptica que havia sido derramada naquela pequena cidade. Como se o pesadelo de fora não bastasse, outro tão pior começa a rivalizar com ele o desespero daquelas pessoas. Os desdobramentos da trama de O Nevoeiro são absurdamente interessantes, a forma como o filme constrói seu desfecho, seus personagens e as situações vividas por eles são excelentes. E o melhor dele não são seus monstros, mas os nossos. Esses que vivem nos esconderijos secretos dos mundos que existem em nós, em universos completamente desconhecidos da nossa racionalidade. Esses seres que, às vezes, emergem abruptamente nos golpeando e diminuindo. Nos avisando que nem sempre todo  freio cultural, histórico, moral ou mesmo religioso pode aplacar essa barbárie intima que nem sabíamos existir, mas está lá dentro, como um vulcão ancestral que ninguém mais achava que podia explodir e que, sem avisar, faz estragos imensos e depois volta ao seu sono secular até, um dia, quem sabe, explodir de novo. 



Escrito por paulo honório às 17h29
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Um Réquiem para um Sonho

 

Existem personagens que são melhores e maiores que seus filmes ou livros. Há exemplos inúmeros de como um deles é capaz de ser toda da diferença, todo o tempero que uma obra pode ter. Alguns são frutos da independência que eles detêm sobre seus autores e/ou da  perspicácia de seus interpretes. Um exemplo que me tem vindo muito à memória nos últimos tempos é o de Sara Goldfarb, interpretado por Ellen Burstyn em Réquiem para um Sonho. Certamente esse não é um filme consensual, bem ao contrário até. Quando o assisti pela primeira vez, a mais de sete anos atrás, ele me pareceu forte, mas bem distante da realidade, da minha.

A história não é nem tanto muito original: jovens que fazem o diabo prá conseguir manter seus vícios e tal.. Indo bem além do possível..

Mas é Sara o grande eixo do filme. Mãe do personagem central do filme, ela é a forma de se conversar com um mundo maior. Uma senhora de meia-idade, um tanto castigada pela vida, refém de alguns momentos de felicidade e que tem na televisão algo mais que companhia. E nela que Sara vê o mundo, o entende e espera dele. Até que um dia acontece de aparecer um convite para uma possível participação no seu programa favorito, algum talk show de perguntas e respostas, qualquer coisa assim.

É bem verdade que a história do filme se desloca também para o que acontece com os tais jovens, mas é nela, nessa senhora, que existe algo de mais interessante.

Sara precisava ir ao programa, mas ela não possuía o mesmo corpo que um dia a deixou tão contente com si mesma num vestido vermelho que usou na formatura do filho. Quilos a mais a separavam de um dia glorioso. Sendo assim não hesita em tentar métodos químicos duvidosos para um rápido emagrecimento. E os dias passam, as doses cada vez maiores e os resultados não tão bons, mas o principal não acontece: a confirmação de sua ida ao programa nunca chega. O peso disso, de tudo isso, começa a ser muito, a ser difícil de ser controlado.

A lucidez começa a ser uma amiga faltosa e logo chegam intrusos pensamentos de medo e dúvida. Fantasmas passam a conviver em sua mente e, como se não bastasse, a acusam. De ser quem ela é, de suas coisas, de sua vida pequena, de sua solidão, do seu pouco. A vida mágica que a TV apresenta e vende passa a cobrar de Sara a sua, que é tão insignificante.

Em seus delírios ela vê, em seu apartamento, as pessoas que ela vê a anos rindo dela e de seu universo doméstico, tão distante da sofisticação e do brilho televisivo. E ela não pode fazer nada, afinal ela é imensamente menor, mais fraca. Num processo tenso o maior vai consumindo o menor e tudo que ele possui.

Certamente essa história já não é tão interessante agora, mas existe um ponto central nela, que a meu ver e o que mais me marcou nesse Réquiem. Essa desafortunada senhora possuía um desejo secreto, algo que ela queria externalizar: ela queria ser amada.. ser amada..

De alguma forma, pelo seu filho, pelas pessoas, pelo mundo, ela queria ser amada. Por ser ela, por ser uma boa pessoa, mãe, enfim, ela queria ser amada..

Queria que sua alegria, já tão empoeirada pelos anos, fosse revigorada e distribuída. Queria ser radiante. Um dia, alguns minutos. E ela quis. Quis muito.

E era pela TV que todos iriam ver como essa alegria e esse amor são sinceros, profundos até. Nela sua beleza  seria resgatada e, como num sonho, ela seria feliz, plena, suave, inteira.

Lógico, sua fantasia não se concretiza e a realidade foi bem mais dura do que sua solidão de antes.

Mas o que dizer dela, de Sara?

Ela é talvez um caminho, inocente, mas um caminho. Sua ambição era verdadeira.

Quantas ambições existem nesse mundo? Quais são tão desejáveis quanto essa?

Lógico, não de deve esperar laranjas de limoeiros.

Réquiem para um Sonho provavelmente não é um grande filme, mas fala de coisas e sentimentos difíceis. Ele fala de alguém que, no escurecer da vida, quis algo simples, mas buscado de um jeito improvável, como alguém que procura por água num rio seco.

Mas quem não precisa ser amado? E qual o erro dessa busca? Até onde se pode ir querendo o que não pode ser achado? Ou pode? Não é ele que nos procura?



Escrito por paulo honório às 11h11
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When I look back upon my life
It's always with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

At school they taught me how to be
So pure in thought and word and deed
They didn't quite succeed
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

Father, forgive me, I tried not to do it
Turned over a new leaf, then tore right through it
Whatever you taught me, I didn't believe it
Father, you fought me, 'cause I didn't care
And I still don't understand

So I look back upon my life
Forever with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to - it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin

(Confiteor Deo omnipotenti vobis fratres, quia peccavi nimiscogitatione,
verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maximaculpa)


<PSB>



Escrito por paulo honório às 14h38
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Tenho pensando em como voltar a escrever nesse blog.. No começo queria que ele fosse algo para falar de tudo, falar das coisas q passa pela vida, pela minha. Mas pq isso? Quem vai querer ler ou por que vou querer expor? Talvez pq é uma forma  de diálogo, de falar as coisas, de pensar em voz alta, enfim..é um pouco de pretensão também. Afinal, tem coisas que não deveriam sair do âmbito do reservado, pessoal, privado ou o que quer que seja. Mas tenho minhas razões em querer continuar, falar aqui do que não falo com as pessoas sempre ou de um outro modo.

Lógico que são meros devaneios tolos, como alguém já cantou antes. Mas gostaria de ser sincero aqui, não em tudo, mas em boa parte e medida.



Escrito por paulo honório às 12h37
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Johnny vai à Guerra..

 

            A história não é diferente das outras: jovem americano de classe-média baixa, do interior, atende ao chamado da pátria para defender a democracia em terras inimigas. Nem todos querem que ele vá, mas ele está firme na sua volta e acaba indo à guerra, no caso, a Primeira Grande Guerra. A operação era de rotina: retirar o corpo de um soldado morto entre cercas de arame. Era para ser rápido, afinal os bombardeiros noturnos eram mais freqüentes e, nesse dia, acabou sendo mesmo. Johnny foi à guerra e o pior acontece: a guerra foi até ele, destruiu seu corpo, seu rosto, seu futuro. Ele não ouve, não vê, não fala e não tem mãos ou pés para fazer sinais. Os médicos acreditam que ele teve danos cerebrais, mas não é verdade. Johnny ou Joe como todos o chamavam se torna um pedaço de carne viva, preso na escuridão do corpo, mas profundezas de suas limitações físicas e como é impressionante tudo isso!

            O processo é longo, doloroso. Não é simples que ele entenda tudo o que aconteceu e o que está acontecendo. A tomada de consciência de seu estado atual é paulatina, e ao mesmo tempo instigante. Mergulhado em suas memórias, não é tão fácil, no começo, distinguir o que é real e o que não é. Os sonhos são como uma janela que o liberta da prisão em que se encontra. Lá ele revê seus queridos, seu passado e descobre coisas novas. Quando está acordado lentamente começa a perceber como as coisas funcionam ao seu redor e mesmo distingui-las. Sente a luz do sol entrar no quarto e assim passa a reconhece dia e noite e chega a contá-los. Mas o tempo vai passando e de alguma forma ele precisa se comunicar com o mundo externo. Num de seus sonhos se recorda ou é lembrando do Código Morse e de que tem uma cabeça que pode fazer sinais. Com auxílio de uma atenta enfermeira que demonstrava um carinho especial por ele, consegue chamar atenção de um jeito que os de fora percebam que se trata de movimentos sincronizados. Johnny descobre um modo de se comunicar..

            Há muitas coisas que impressionam no filme, muitas! Nenhuma delas, no entanto, me chamou mais atenção como a maneira que Joe consegue de alguma forma ser mais forte que o desespero da situação em que se encontra. Preso na escuridão do seu corpo, ele tenta ponderar sobre tudo que acontece, criar esperança, raciocinar e compreender os fatos, as seqüências e desenvolve uma grande habilidade de percepção. Sozinho em si, ele descobre que precisa ser melhor do que a insanidade em que estava seu corpo. O mais estranho é que muitas das vezes ele chega a ser engraçado nas suas reflexões e desvarios.

            Johnny vai à guerra é a conseqüência da guerra, a razão de sua estupidez. Mas ele é maior que ela, por mais absurdo que seja. Não existem guerras justas ou boas, santas ou necessárias. Elas são sempre o melhor exemplo de como somos inúteis enquanto espécie, do quanto somos incapazes de aprender o mais simples. Mas nem sempre foi assim, para muitos elas continuam sendo o motor da História, uma condição quase necessária para mudanças ou manutenção, enfim.. Bem, nesse caso, talvez o melhor exemplo de como uma guerra deveria ser foi dado por Erich Maria Remarque -  que lutou de verdade na Primeira Guerra e toda sua obra posterior é fruto das lembranças e amargas impressões que viveu nas trincheiras - no seu Nada de novo no Front, um dos mais importantes romances pacifistas do século XX:

 

Kropp, ao contrário é um pensador. No seu entender, uma declaração de guerra deve ser uma espécie de festa do povo, com entradas e músicas, como nas touradas. Depois os ministros e os generais dos dois países deveriam entrar na arena de calção de banho e, armados de cacetes, investirem uns contra os outros. O último que ficasse de pé seria o vencedor. Seria mais simples e melhor do que isto aqui, onde quem luta não são os verdadeiros interessados.”

 



Escrito por paulo honório às 12h26
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Da ocupação do INCRA pelos sem-terra

 

Desde que os sem-terra ocuparam a sede administrativa do INCRA, na segunda-feira, dia 16, que um monte de gente tem me perguntado como foi, o que aconteceu, se eles já saíram, se quebraram tudo, e um monte de etc. Na verdade foi tudo tão como das outras vezes,  que até agora estou sem entender a razão de tanto alarde na mídia e na curiosidade das pessoas. E como falam do sem-terra. Geralmente mal, mas falam muito. E ainda bem, pior se eles não chamassem a atenção para nada. É incrível com em pouco menos de 10 anos eles se tornaram um grupo que divide tanto a opinião pública (seja já o que isso for).

 

Se antes eram vistos com simpática, hoje em dia a situação é bem diferente.  No fundo, eles se tornaram os vilões do Brasil, as “pragas” do campo, enfim mas falar mal é bem fácil, sobretudo quando existe um esforço sobrecomum para descaracterizar o maior movimento social ainda existe por estas bandas.

 

Agora o que mais chama atenção de tudo isso é uma pequena pergunta que poucos fazem ainda: Por que os sem-terra existem? No começo do “avançado” século XXI; na era do conhecimento, da biotecnologia, faz sentido ainda falar em Reforma Agrária? Em terra? Bem, talvez. Eles mesmos são a resposta para questão acima. Num país que foi construído na base do autoritarismo, da espoliação generalizada; a custo de rios de sangue e suor de milhões de vidas, da destruição de culturas inúmeras, e do fomento de uma “pátria” sem muito rumo e sem conhecimento de si, não é de se esperar que a questão agrária até hoje esteja incomodando muita gente.   O Brasil de hoje é o fruto da Reforma Agrária, só que da que nunca foi feita. O patrimonialismo, a falta de consciência de classe (dos pobres, principalmente; até porque os ricos sabem muito bem quem são e o que querem) e a insuportável indiferença da classe média para tudo isso, só continuam a confirmar a gravidade das nossas “escolhas” enquanto país. A modernização do campo, o inchaço urbano, a abrupta diferença social e a eminente crise de recursos naturais são, em última instância, o resultado da grande Reforma Agrária Brasileira, aquela mesmo que muitos governos se gabam em dizer que fazem, mas que no fundo, nunca saiu da retórica, nunca desafiou os poderes estabelecidos, nunca permitiu ao povo brasileiro (que talvez nem exista) ser soberano, livre para ter a possibilidade de escolher de fato. Até porque ninguém pode escolher quando não tem opção nenhuma.

 

E os sem-terra nisso tudo? Bem, são resultado também, e como os demais, problemáticos. Mas ainda assim, melhor com eles do que sem. Tomara que recuperem sua voz e consigam dialogar com o restante do país, com outros atores sociais, denunciando o que é necessário, exigindo o que lhes foi prometido e tentando construir uma proposta nova para o campo brasileiro. Se no fundo, eles em si não são garantia de nada, talvez a sua grande contribuição seja justamente incomodar, ressaltar a contradição ainda inerente à experiência brasileira enquanto país, permitir que os demais não se esqueçam da forma como fomos construídos, do quando doeu e ainda dói.



Escrito por paulo honório às 16h27
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Vou tentar escrever mais regularmente por aqui..

Faz muito bem, hehe..



Escrito por paulo honório às 02h28
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Páscoa é também  tempo de dores, sobretudo. Dor da morte, da angústia dela e por ela; é abandono, escuridão. Medo que encera o futuro, que cauteriza a esperança, que nos lembra da miséria do mundo, da dureza dos fatos, da contradição inerente à vida, ao amor que de escasso, quase inexiste. 

 

Já havia tempo que não escrevia neste meu pequeno e abandonado blog. Se hoje escrevo, é porque no fundo, é necessário refletir um pouco. Ontem, sexta, assisti “A Escolha de Sofia”, que é um filme já antigo. Havia tempo que não me impressionava, marcava e incomodava assim um filme. Denso, forte, cativante, terrível, real e belo. Talvez só por isso já se possa imaginar a natureza que uma história que tem a capacidade de te fazer pensar radicalmente sobre a “dor da vida”.

 

Não cabe aqui o roteiro do filme, mas sim falar que Sofia (Mary Streep) fez algumas das escolhas mais cruéis que um ser humano pode fazer. Cercada pela morte nazista, por um mundo em ruínas, por um tempo que ardia em horror e desolação, ela escolhe perder em parte e acaba perdendo tudo.

 

Mas Sofia também viveu para sentir o que a contradição da vida proporciona. Se há, de um lado, o sofrimento implacável, do outro, existe a bondade, a vontade que emana das pessoas. E viveu para escolher novamente. E, entre o possível e o improvável, ela não reluta.

 

Muito disso é a vida, muito disso sou eu. E isso tudo é Páscoa, é morte. Mas é morte gerando vida, que se contradiz no mundo, mas é vida e deve ser eterna. E a contradição gera dúvida e o seu grande benefício: fazer-nos lembrar que não há maior contradição no mundo que nós mesmos e que, se dói, no fundo, é porque é inerente, mas pode fazer amadurecer, melhorar. Até porque só há sentido na tristeza da Sexta quando se lembra da esperança representada pelo Domingo, pelo romper grandioso do Sol Brilhante, que empresta esperança e o desejo de um novo mundo.

 

Feliz Páscoa!



Escrito por paulo honório às 02h27
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Não é tão raro ouvir das pessoas que a vida delas daria um filme. Pois bem, acho que talvez a vida de quase todos, ou mesmo todos, de certa forma pode ser roteiro para algum. Ontem assisti “Babel”, o fim de uma “trilogia” que começa com “Amores Brutos” e passa por “21 gramas”. No fundo, me lembrou mais o primeiro. Histórias diferentes, países e continentes incomuns e uma linha relacional, por assim dizer, unindo tudo isso. “Babel” é desses filmes que te reavivam a lembrança de vários outros e só isso já é um ponto importante a seu favor. No fundo é um bom começo, apenas. Menor que seus “anteriores”, ele de certa forma é mais intencional que sugestivo, mais evidente e talvez por isso mesmo, menos interessante. O problema maior de “Babel” foi justamente explicar demais suas histórias e acredito que isso vez o filme perder a oportunidade de trabalhar  com outros assuntos ou com o grande assunto que se propôs a tratar. Num mundo ruidoso como este, onde nunca (ou quase nunca) se ouve nada, enxergar além de si não é possível, aliás, não é permitido. “Babel” quis falar disso e falou, porém um tanto imprecisamente. Talvez, alguns momentos dele sejam sim maiores que o conjunto do filme, mas certamente ele como um todo poderia ter sido bem maior. Mas é bom de ser visto e até mesmo necessário. Já disse, ele é um começo ou, quem sabe, a continuação de um.



Escrito por paulo honório às 00h02
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Mudar Para Manter: Pseudomorfose da Agricultura Brasileira

 

                                                                                                               José Sidnei Gonçalves

 

 

Um dos desafios permanentes ao entendimento da necessidade de uma Reforma Agrária no Brasil é, sem dúvida, a compreensão profunda da Questão Agrária Brasileira e suas conseqüências passadas, presentes e futuras. Sendo assim, Mudar Para Manter: Pseudomorfose da Agricultura Brasileira, do pesquisador do Instituto de Economia Aplicada José Sidnei Gonçalves, situa-se entre aqueles livros de leitura obrigatória para todos que se aventuram por tal temática; não apenas pelo fato de apresentar as variadas interpretações da Questão Agrária Brasileira, feitas por autores diversos, em diferentes momentos de nossa história, mas, sobretudo, por analisar e descrever as transformações aparentes do Campo no país, que se moderniza, é verdade, entretanto não pela via democrática, mantendo a terra ainda subjugada aos interesses de poucos.  No começo do século XXI, a Questão Agrária Brasileira não deixou de ser relevante, muito pelo contrário, é cada vez maior a necessidade de esforços conjuntos para traduzi-la, objetivando a viabilidade da manutenção de políticas públicas destinadas a levar a cabo uma Reforma Agrária que de fato seja “morfose” da estrutura territorial brasileira.

O livro pode ser baixado no link:http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=7842



Escrito por paulo honório às 23h00
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